"Já fazia mais de hora que o sol havia nos abandonado, quando uma tempestade desabou sobre nossos ombros. A noite era tão escura , que eu mal enxergava o Thiaguinho que desembestou na dianteira, ladeira abaixo e quando tentei acionar os freios, as rodas trepidaram, balançaram de um lado para o outro e eu me vi totalmente desamparado , virei passageiro daquela geringonça dos anos 80. A velocidade só fazia aumentar, pensei em me jogar pro barranco, mas as valetas laterais teriam me moído no buraco. Tento manter a calma, mas as minhas energias depois de mais de 12 horas de pedalada, me levam a um transe de resiliência. Penso em pular, mas aí me vem a lembrança, o dia em que eu e meu irmão, numa infância distante, nos jogamos de cima de uma bicicleta sem freio, numa ladeira da nossa aldeia e acabamos sendo trucidados pelo chão. Enfio o tênis na roda traseira, mas o solado do maldito é daqueles tênis de atletismo e o atrito não resolve porra nenhuma. Mesmo assim, continuo tentando e quando vejo que o terreno se arrefeceu um pouco, boto os pés no chão e ao encontrar um amontoado de areia, pulo, como quem pula de um caminhão desgovernado, mas sem soltar as mão da bicicleta. Fico no cai, mas não cai, danço conforme a ondulação do terreno, até que quando me vejo estabilizado, largo mão daquela merda e me esparramo na areia molhada, enquanto o veículo do satanás, de duas rodas, segue seu caminho até se deter mais à frente. Eu não sou mais ninguém, o ciclista animado da manhã, agora parece um ser que não consegue se sustentar sobre as próprias pernas , estou acabado, a vontade é sentar e chorar."............................
No centro do Estado de São Paulo, a 200 km da sua capital, uma região de incontáveis atrações naturais, ainda se mantém muito longe do turismo de massa, ainda que sua cidade mais famosa, BROTAS, acabe por cooptar a maioria do turismo, se intitulando a Capital da Aventura no Estado. Mas a região vai muito mais além do que a sua cidade mais famosa, na verdade, são dezenas de cidade compondo uma grande região turística, mas que sinceramente, até para mim que vivo ao seu redor, me soa um pouco confuso. Costuma-se denominar algumas cidades como CHAPADA GUARANÍ, que seriam cidades encima de uma grande mesa basáltica, um incrível chapadão, uma espécie de, guardando as suas devidas proporções, Chapada Diamantina Paulista.
Acontece que, embaixo desses chapadões, também temos pequenas cidades de belezas muito cênicas, aliás, são cidades que recebem as águas que despencam das mesas e é por onde se pode acessar algumas cachoeiras. Mas não é só isso, são cavernas, formações rochosas, vilarejos charmosos, trilhas para motocross, jeep, bicicleta, formações rochosas, morros testemunhos, mirantes de perder o fôlego. Algumas dessas cidades compõe o CIRCUITO DA SERRA DO ITAQUERI e outras o circuito CHAPADA GUARANÍ, na verdade, uma salada difícil de compreender porque várias cidades acabam por fazer partes de todas as denominações e como a região é gigante, o governo do Estado e secretaria de turismo, ainda dividiu em outra região que chamou de circuito CUESTA PAULISTA.
Já fazia anos que o Thiaguinho me cobrava uma pedalada nessa região e como eu não me manifestava, colocando uma data, ele simplesmente me forçou a sair da moita e numa sexta-feira à tarde me informou que passaria na minha casa, sábado à noite e me pegaria com seu carro, porque já era hora da empreitada sair do papel. Coube a mim elaborar um roteiro, já que, apesar de frequentar muito a região, eu nunca tinha me aventurado sobre 2 rodas, então decidi que o nosso ponto de partida seria a minúscula e pacata IPEÚNA, uma charmosa cidadezinha de meia dúzia de habitantes, onde eu pretendia estacionar o carro e fazer um circuito tranquilo, de uns 60 km de pedaladas, subindo a chapada e voltando para o mesmo lugar.
Por volta das 8 da manhã, estacionamos na praça central de Ipeúna, bem da rua abaixo da sua igreja central, em frente da base policial. O Thiaguinho sacou logo sua bike de última geração e eu tomei posse de um trambolho fabricado na década de 80, uma bicicleta bem conservada, mas sem as tecnologias atuais, apenas algumas mudanças aqui e ali, mas no final do dia, eu iria descobrir que não havia sido suficiente.
O nosso caminho seguiu exatamente pela rua que estávamos e em poucos minutos, numa curva, deixamos o asfalto e ganhamos as estradas de terra junto à uma bifurcação. Logo o caminho desembesta para baixo e desce até um vale e aí a subida desafia nossa capacidade de pedalar, ainda com o corpo frio, mas eu logo arrego e empurro ladeira acima e quando se estabiliza, a estrada vira um amontoado de areia e logo à frente, uma bifurcação junto à uma placa, faz a gente parar e admirar os paredões avermelhados da Serra do Itaquerí, de frente para uma formação característica conhecida como CABEÇA DE ÍNDIO. É a primeira vez que o Thiaguinho tem contato com essa paisagem e realmente, é uma visão lindíssima e surpreendente por estar tão perto da capital e ser conhecida por poucos.
A previsão de mal tempo não se confirmou, o sol já queima sem piedade e na bifurcação, pegamos para a direita e vamos seguir como quem vai ao encontro da Cabeça de Índio e cerca de 6 km desde a cidade, uma porteira lateral nos chama a atenção para um mirante espetacular para a grande formação rochosa, então nos detivemos por um tempo para um gole de água e uma foto.
O terreno parece que vai se estabilizar, mas hora ou outra, nos deparamos com alguma ladeira e o calor inclemente da manhã, vai minando nossas energias. O cenário é muito bonito e nossa direção vai seguir o caminho que nos levará para a subida da serra. Antes de subir a serrinha, eu pretendia deixar as bikes escondidas e tentar reencontrar a Gruta da Boca do Sapo, mas achei que perderíamos muito tempo nela, haja visto que esse roteiro eu havia estabelecido para ser feito em 2 dias e estava apenas adaptando a quilometragem para um único dia, então passamos batidos e iniciamos a subida da serra, abandonaríamos a planície local e subiríamos de vez para os chapadões, era hora de ganharmos altitude.
Nossa pedalada inicial então chega ao km 12, que de bicicleta poderia significar absolutamente nada, mas diante do terreno arenoso e das primeiras subidas intermináveis sob um sol escaldante, já faz a gente começar a botar a língua de fora. No início da subida da serra o terreno vai se elevando lentamente, mas não dá nem 300 metros e pedalar já não é mais opção, não só pelo terreno inclinado, mas pelas grandes pedras que inviabilizam a progressão montado nas bikes . Empurrar bicicleta ladeira acima é um martírio que vamos absorvendo, um sofrimento que é preciso passar, sob o pretexto de que quando chegarmos lá encima, tudo vai ser diferente, e é vivendo nessa ilusão que nos apegamos à nossa força interior e quando atingimos uns dois terços do caminho, nos deparamos com um MIRANTE que nos faz voltar a sorrir novamente e continuar acreditando nas mentiras que a nossa cabeça criou.
Como não há sofrimento que dure para sempre, uma última curva da serra é deixada para trás e do nosso lado direito, meia dúzia de eucaliptos força a nossa parada e mesmo que ainda não seja definitivamente o fim da subida, será ali que abandonaremos provisoriamente a estrada, em favor de uma TRILHA que sai à direita e entra num capinzal alto, tão escondida que se não forçar passagem na alta vegetação inicial, quem não conhece e não tem nenhuma referência, passará batido.
Levamos cerca de 45 minutos empurrando as bicicletas para ganharmos quase todo o chapadão e agora, vamos abandoná-las no mato e ganharmos a trilha a pé, rumo a uma das grandes joias da Serra do Itaqueri . Então, forçando passagem no capim alto, uns 10 metros depois a trilha surgirá, aberta e bem consolidada, vai se curvar para a esquerda e descerá meio que em nível até começar a despencar de vez, curvar quase 90 graus para a direita, onde encontraremos uma arvore monstruosa e começar a percorrer um paredão de arenito que estará a nossa direita.
Não há erro, é preciso se manter quase que colado nos paredões, às vezes não mais que 5 metros de distância deles, passamos por um filete de água que despenca de cima do próprio paredão, onde poderemos abastecer os cantis, contornamos um terreno encharcado até que surpreendentemente, daremos de cara com a enorme boca da GRUTA DO FAZENDÃO.
Para quem chega, pode se surpreender com as pichações do passado, mas hoje praticamente essa prática cessou e mesmo não havendo nenhuma fiscalização, pelo estado que encontramos a trilha, percebemos que a gruta quase não está sendo visitada. Ao subir as pedras que antecedem a entrada da gruta, é possível sentir a grandiosidade do seu pórtico. A gruta do Fazendão é daqueles lugares que sempre gosto de levar os amigos e apresentar como sendo parte do meu quintal, já que a maioria do meu círculo de amizades, ligadas ao mundo de aventura, são de gente da Capital Paulista e eu acabo por me tornar um dos poucos representantes do interior. Uma vez inventei de trazer uns amigos na gruta, alguns deles jamais haviam entrada numa caverna antes, apesar de já serem exploradores que já rodaram meio mundo. E mesmo os que já estiveram em cavernas, nunca tinha entrado em cavidades areníticas, onde em algumas é preciso se rastejar feito um lagarto. E um desses amigos passou mal, deu pit, simplesmente teve uma crise de pânico e tivemos que evacuar a gruta às pressa, o que no final, rendeu muita zoeira e altas risadas.
Nos apossamos das nossas lanternas e subimos os blocos de pedras, que num passado muito distante, desmoronou do teto. No início, a impressão é que a gruta não passa de uma pequena cavidade, baixa e sem muito interesse, mas em um minuto a desconfiança da lugar a grandiosidade . Um corredor gigante se abre e o teto se eleva e nos surpreende, porque 2 minutos depois, a escuridão absoluta toma conta do lugar e quem não está familiarizado com esse tipo de ambiente, já começa a ter um desconforto. Num primeiro momento, a gruta é horizontal, anda-se em pé porque o espaço é amplo, com um grande corredor . O teto é alto , mas o chão apresenta irregularidades , onde algumas fendas vão deixando os visitantes de primeira viagem, um pouco desconfiádos.
Eu sigo à frente, fazendo as vezes de guia, mas já conhecedor dos caminhos que vão levar aos becos mais aventureiros, rapidamente abandono o caminho fácil e desimpedido , em favor de uma greta a direita do caminho, encostando na parede da caverna., onde desço por uma pequena rampa até me ver de frente à um buraco de rato.
É aqui que começa a brincadeira, num buraco de uns 50 centímetros de largura por uns 10 metros de comprimento, iremos adentrar no corredor de arenito, nos rastejando feito vermes, encostando nossas barrigas no chão e ganhando terreno metro à metro , até nos vermos dentro de um grande salão no centro da terra, com seu teto alto , sua temperatura gelada , uma cena iluminada pelas luz das nossas lanternas, como quem adentra nas histórias de Júlio Verne.
O Thiaguinho passou muito bem e parece se encantar com o novo ambiente e mesmo eu, acostumado à exploração de cavernas desde os primórdios da minha vida de aventura, ainda consigo me surpreender com esse mundo fascinante.
Uma nova passagem em formato de um pequeno pórtico, nos leva para outro salão, tão grande quando os 2 primeiros e a saída desse terceiro salão, é pela esquerda, subindo rastejando numa rampa , que vai passar por uma perigosa e profunda fenda e então virando para a direita, chegando ao salão dos morcegos , um amontoado de centenas deles, que estão agrupados no teto e ao sentirem nossa presença e nossas lanternas, tomam conta da caverna, voando de um lado para o outro, às vezes trombando nas nossas cabeças.
A saída é retornar para a esquerda, cruzando por uma passarela natural sobre a fenda que havíamos passado, com cuidado para não cair em outras cavidades, avançando lentamente, vagarosamente, até perceber ao longe, um facho de luz que nos indica a saída ou seja , o nosso ponto de partida. Foi uma exploração proveitosa e antes de deixarmos a gruta para trás, fizemos uma parada para um lanche e um gole de água.
Retornamos pelo mesmo caminho que viermos, agora subindo lentamente até reencontrarmos nossas bicicletas e ganharmos novamente a rua. Ainda iremos subir por uns 200 metros até que o terreno se estabiliza de vez, definitivamente agora, estamos em cina da CHAPADA PAULISTA, galgamos com dificuldade, mas enfim subimos à grande mesa . Logo à frente cruzamos por uma lagoinha à nossa esquerda, onde penso em me jogar , mas menos de 5 minutos , também à nossa esquerda, uma lagoa gigante desafia a minha capicidade de resistir, mas não resisto e não faço nenhuma questão. Jogo a bike no capim, tiro meu tênis e com roupa e tudo , saio correndo e me jogo na água. O calor tá de lascar e o Thiaguinho vem junto e em um minuto, somos dois moleques se regozijando nas aguas mornas .
Voltamos à estradinha até que ela chega a uma espécie de “T”, aí vamos pegar para a direita. Estamos agora indo ao encontro da Cachoeira da Lapinha e estradinha ao chegar a um cruzamento em forma de triangulo, nos obriga a viramos para a direita e aí vamos descer pra valer, tentando segurar os freios até quando ela se estabiliza, passa por uma floresta de eucalipto e aí temos que nos deter junto a um pequeno riacho que despenca no vazio, formando a cachoeira em questão.
A CACHOIERA DA LAPINHA, também é conhecida como Cachoeira do Carro Caído, devido a uma carcaça de um veículo que se encontra nos pés da queda. No passado, a gente explorou todo o vale vindo por baixo, mas a cachoeira estava com pouca água e não há propriamente uma trilha que se possa chegar partindo de cima, mas com um pouco de habilidade e sem medo dos riscos, é possível descer pela esquerda dela, desescalando uma parede perigosa, mas não ali onde a queda despenca, claro, tem que se afastar uns 300 metros, cair no leito do rio e subir até onde ela despenca.
Nos despedimos da Cachoeira, atravessamos a pontinha e seguimos adiante, apreciando as florestas de eucaliptos e sempre seguindo na principal, nosso rumo vai tomar a direção do Bar do Valentim, onde está a Cachoeira São José, sempre atentos as placas. Da Cachoeira da lapinha até a Cachoeira São José, serão exatos mais 6 km de pedalada e é um caminho belíssimo e agradável, por ser quase só descida e quando lá chegamos, nossa quilometragem vai bater exatos 25 km, pouca coisa, mas não se engane, a atividade não foi feita só de pedalar, então, já um tanto cansado, estacionamos junto ao bar, onde dezenas de pessoas se amontoam, gente de bike, de moto, de jeep, corredores de montanha, ali é parada para todas as tribos.
O bar é onde se pode tomar umas cervejas, uns sucos, comer alguma coisa ou somente descer as escadarias e ir tomar um bom banho na CACHOEIRA SÃO JOSÉ, porque a entrada é gratuita. A cachoeira não é muito alta e suas águas escuras são proveniente de terrenos areníticos com rochas basálticas, portanto, a água é avermelhada, meio cor de barro, mas com o calor que está fazendo, não vamos ficar de mi-mi-mi e não demorou muito pra gente se enfiar embaixo dela e lá ficar, aplacando o calor intenso dessa final de manhã.
Uns 15 anos atrás, eu havia chegado até aqui, mas vindo motorizado, foi quando nosso 4x4 atolou dentro de um rio e eu e minha filha ficamos horas tentando desatolá-lo, lutando contra o tempo e contra uma tempestade que se avizinhava, não levasse a gente embora caso enchesse o riacho. Acampamos próximo ao bar, mas não chegamos nem a conhecer a Cachoeira, que estava fechada. Então a partir de agora, todo o caminho à frente seria uma novidade também para mim.
Montamos nas bicicletas e prosseguimos, mas não deu nem 500 metros, fomos obrigados a desmontar novamente. O cenário que nos foi apresentado era surpreendente, sem aviso prévio, um cânion de proporções gigantescas surgiu à nossa frente. E não posso nem negar que desconhecia a sua existência, já que tinha ideia que havia uma cachoeira que despencava ali nas redondezas do bar, mas nunca que eu iria imaginar que seria daquela magnitude.
O CÂNION PASSA CINCO, me desconcertou, ainda que a grande cachoeira de mesmo nome, tivesse a sua vista muito prejudicada. Mas era mesmo surpreendente, um gigantesco abismo com bem mais de 100 metros de altura, de onde 2 quedas d’agua se precipitavam no vazio, emolduradas por uma floresta verdinha.
Claramente, por ali seria impossível descer ao fundo do cânion, então retomamos o arremedo de estrada e em mais 1,5 km, numa bifurcação tripla, vamos quebrar para esquerda e uns 150metros depois, vai surgir à direita, uma trilha que irá nos levar definitivamente para dentro do cânion. Estamos na TRILHA DO LISINHO, uma trilha somente para quem pratica motocross, com veículos especializados e com experiência vasta no assunto, evidentemente, não é nem de longe uma trilha para bicicletas, mas como ninguém havia nos dito nada, embicamos a nossa bike e fomos nos fuder naquela desgraça.
Logo no começo, já vimos que seria uma encrenca, mas sem conhecer, esperávamos que o terreno melhoraria mais à frente. Ledo engano, cada vez foi é piorando mais. As valetas eram capaz de engolir nossa bicicletas e era praticamente impossível pedalar e quando tentávamos, não era raro cairmos nos buracos e termos nossas canelas dilaceradas pelos pedais que batiam nas paredes laterais e voltavam nas nossas pernas. Aquilo foi um verdadeiro inferno, ainda que a gente se divertisse com a pataquada que acabamos nos metendo, a descida foi minando nossa energia, já que o calor ainda se mantinha insuportável.
Levamos uma meia hora ou mais para chegar ao fundo do cânion, mas mesmo assim, as trilhas ainda se mantinham confusas, parecia que não iam dar em lugar nenhum e empurrar as bicicletas já foi se tornando um verdadeiro martírio. Claro, a gente não se deu conta de que estávamos tomando decisões erradas e que deveríamos ter abandonado as bikes e seguido á pé por dentro do cânion, até conseguirmos interceptar as grandes cachoeiras. Mas chegou uma hora que a gente resolveu voltar, simplesmente o dia já começava a escorregar por entre os dedos e já havíamos passado das 14 horas e aí nos demos contas que não tínhamos mais tempo para explorações, era hora de voltar ao nosso roteiro original.
Dentro do cânion, junto ao rio que corta todo o vale, resolvemos que deveríamos atravessar para o outro lado, tentar achar um caminho que subisse as paredes opostas do vale, porque voltar pela trilha do Lisinho, estava fora de cogitação. Então atravessamos o rio com as bicicletas nas costas e ao chegarmos no centro do cânion, o horizonte se abriu e interceptamos uma sede de fazenda totalmente abandonada, um lugar lindíssimo, onde chegava uma estrada. Essa estrada ao chegar ao casarão abandonado, se transformava numa trilha que ia se enfiando para dentro do cânion, indo na direção do fundo dele, onde estavam as cachoeiras. Seguimos essa trilha por uns 5 minutos, mas logo desistimos de vez, o tempo urge, era chegado a hora de pular fora dali.
Analisamos o mapa, vislumbramos uma saída por uma perna do cânion, na verdade, outro cânion lateral. Então tomamos o rumo de quem vai em direção a entrada do vale, passamos por mais uma casa abandonada, subimos uma trilha pela sua esquerda até chegarmos ao outro cânion, onde uns bois mal-encarados nos deram as boas-vindas, louco para nos dar umas chifradas. Ali começamos a subir, na esperança que no seu final, houvesse um caminho que nos levasse para cima das paredes, ainda que tivéssemos que carregar as bikes nas costas.
Mas não adiantou, o caminho não tinha saída. Estávamos presos, não havia mais o que fazer, tínhamos que retornar, repensar nosso caminho, agora havia chegado a hora de achar uma rota de fuga. O Thiaguinho voltou rápido, eu já começava a capengar com aquela bicicleta pesada e na ânsia de alcançá-lo, meti marcha no meio da trilhinha junto ao pasto, mas um tronco estacionado fora das minhas vistas, foi o obstáculo que faltava para eu bater com a roda dianteira e ser catapultado barranco abaixo, eu de um lado, bike do outro, canela arrebentada e guidão entortado, o chão é o refúgio dos trouxas sobre 2 rodas.
Levanto-me, ainda puto, mas logo estou rindo sozinho da situação. Alcanço o Thiaguinho e tomamos o rumo da saída, passamos pelos bois, pulamos uma cerca de arame e ganhamos uma estrada larga, onde uma ponte decrepita, impede a passagem de carros. Em poucos minutos passamos por uma única casa que parecia ser habitada e ganhamos a estrada em definitivo, assim que cruzamos mais uma ponte, de onde era possível avistar sobre nossos cabeças, o MORRO DO GORILA, uma linda formação de arenito.
Verdade seja dita, a tarde praticamente já se foi e o dia já é capenga, apesar de ainda haver sol. Depois de atravessar a ponte , a estrada de areia vai seguir quase em nível, o que ajuda a gente a conseguir peladar um pouco mais forte, mas não demora muito, observo que o Thiaguinho para imediatamente à frente e sem perceber, desvio rapidamente de uma cascavel que por um pouco não picou a picou a perna dele, foi muita sorte. Dois quilômetros depois, passamos por um bar, que estava fechado , mas um senhor nos indicou que se quisessemos voltar pra Ipeúna, teríamos que virar a direira e seguir pedalando até o curral de uma fazenda, onde deveriamos contornar pela direita e nos apegarmos à estrada principal.
Como sol ja está bem baixo, os paredões do nosso lado direito, vão ficando belíssimos. Mas se o cenário é de tirar o fôlego, o caminho é de tirar a nossa paciência. O areião vai travando a gente , a pedalada não desenvolve, eu praticamente não tenho mais água, a comida acabou faz horas . Claro que poderiamos buscar socorro em algum sitio próximo, pelo menos pra buscar uma hidratação, mas a vontade é de chegar, de encerrar . As pernas já pedalam no modo automático, a minha bicicleta começa a dar sinais que o freio não quer mais funcionar e cada vez, preciso fazer mais força com as mãos.
E a gente pedala, e à frente dos nossos olhos, vão ficando para trás uma infinidade de pequenas propriedades rurais, choupanas jogadas à beira do caminho, matutos e seus animais de estimação, bois, vacas, cavalos, tratores, carroças, plantações, riachos , capões de mato, num sobe e desse sem parar, até que nem eu, nem equipamento aguentam mais . Os freios da bicicleta se foram, a minha capacidade de seguir pedalando , virou pó. Sou um homem entregue ao meu próprio sofrimento, ao meu desespero individual. Não consigo nem mensurar o que o Thiaguinho deve estar pensando de mim, também estou numa condição que nem me importo mais , sou só um homem morto que não caiu porque ainda me resta um brio interior, tentando resguardar o ultimo vestigio de dignidade que me sobrou.
Já fazia mais de hora que o sol havia nos abandonado, quando uma tempestade desabou sobre nossos ombros. A noite era tão escura , que eu mal enxergava o Thiaguinho , que desembestou na dianteira, ladeira abaixo e quando tentei acionar os freios, as rodas trepidaram, balançaram de um lado para o outro e eu me vi totalmente desamparado , virei passageiro daquela geringonça dos anos 80. A velocidade só fazia aumentar, pensei em me jogar pro barranco, mas as valetas laterais teriam me moído no buraco. Tento manter a calma, mas as minhas energias depois de mais de 12 horas de pedalada, me levam a um transe de resiliência. Penso em pular, mas aí me vem a lembrança, o dia em que eu e meu irmão, numa infância distante, nos jogamos de cima de uma bicicleta sem freio, numa ladeira da nossa aldeia e acabamos sendo trucidados pelo chão. Enfio o tênis na roda traseira, mas o solado do maldito é daqueles tênis de atletismo e o atrito não resolve porra nenhuma. Mesmo assim, continuo tentando e quando vejo que o terreno se arrefeceu um pouco, boto os pés no chão e ao encontrar um amontoado de areia, pulo, como quem pula de um caminhão desgovernado, mas sem soltar as mão da bicicleta. Fico no cai, mas não cai, danço conforme a ondulação do terreno, até que quando me vejo estabilizado, largo mão daquela merda e me esparramo na areia molhada, enquanto o veículo do satanás, de duas rodas, segue seu caminho até se deter mais à frente. Eu não sou mais ninguém, o ciclista animado da manhã, agora parece um ser que não consegue se sustentar sobre as próprias pernas , estou acabado, a vontade é sentar e chorar.
Agora a coisa ficou feia de vez. Até então, a minha capacidade de pedalar já não existia mais , só que agora, sem nada de freios, eu não conseguia nem descer as ladeiras montado, porque naquela escuridão avassaladora, não conseguia ver nada , saber se a ladeira era perigosa ou não. Então, eu subia empurrado e descia empurrando, enquanto a chuva fria castigava nossa cacunda. E nem quando o Thiaguinho me chamou a atenção para as luses da cidade, que se apresentou à nossa frente , eu me animei. Mas eu continuei, cabeça baixa , moral abaixo do volume morto . As cãibras surgirem , era algo inevitavel , a cada 15 ou 20 minutos, lá estava eu, jogado ao chão, com os musculos enriquecidos, dores tão fortes quanto a minha vergonha diante da situação.
Só quando passamos enfrente aos campings , foi que me dei conta que estavamos perto do asfalto e quando lá chegamos, minha vontade era de jogar a bicicleta fora , porque eu já não tinha mais forças nem pra pedalar no terreno plano e firme, por isso empurrei na maior parte do tempo, até que quase NOVE da noite, desembocamos em definitivo na PRAÇA CENTAL de Ipeúna, quase 13 horas de pedaladas e então , nos sentamos à frente da barraca de lanches e quando o sanduiche de costela atingiu a minha corrente sanguinia , uma lagrima escapou dos meus olhos.
Quando o Thiaguinho lançou o convite, pensei em recusar, eu estava fisicamente destruído por atividades ligadas a outros esportes tradicionais. Mas achei que seria deselegante deixá-lo na mão, já que era uma promessa antiga , que eu vinha adiando, mesmo assim , deixei bem claro que só iria com o intuito de fazer um belo passeio, apenas pra mostrar parte da região pra ele. O problema, é que a maldita palavra "passeio" jamais fez parte do nosso vocabulário, quando a gente inventa algo, será sempre acima da nossa capacidade de bom senso. O suposto passeio, se tornou numa jornada de quase 13 horas , um epopéia de achados e perdidos , que misturou montain bike com exploração de cavernas, mergulho em lagoas, descida à cânions, banho de cachoeira, pedaladas em trilhas e pastos sem caminhos . Saímos em busca de uma jornada tranquila, voltamos destruídos pela aventuda que encontramos pelo caminho.
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CONHEÇA OURO PRETO, MG.
Ouro Preto nasce com a descoberta do ouro. Antes mesmo de 1700, o espírito de aventura e o ímpeto pela riqueza fácil levam à região centenas de aventureiros, em sua maioria portugueses e paulistas (chamados bandeirantes). Segundo a lenda, ao meter a gamela no Ribeirão Tripuí para matar sua sede, um homem encontra no fundo algumas pedras negras (metal coberto por uma fina camada de óxido de ferro, o que tornava o metal mais escuro) e resolve guardá-las.
De volta a Taubaté, em São Paulo, de onde partira sua bandeira, repassa as pedras a outro homem, e estas chegam às mãos do então governador do Rio de Janeiro, Artur de Sá e Menezes. Num gesto despretensioso, o governador leva à boca uma das pedras e, trincando-a com os dentes, identifica o tão cobiçado metal.
A notícia logo se espalha e com ela o registro de que o achado de ouro teria ocorrido nas proximidades de uma formação rochosa chamada pelos índios de Pico do Itacolomi.
Inúmeras expedições partem em busca do famoso local, mas sem sucesso retornam ao ponto de partida. Até que em 1698 o paulista Antônio Dias de Oliveira alcança a região do Itacolomi e, descobrindo um veio riquíssimo, resolve se estabelecer, mandado buscar amigos e parentes em Taubaté.
A partir daí, aumenta o número de bandeiras que se dirigem à região. O metal é abundante, encontrado no leito e às margens dos rios e na encosta dos morros.
As construções – capelas, igrejas, pontes, fontes, casas e museus, hoje admiradas como belos exemplares da arte barroca mineira – foram erguidas em sinal de devoção cristã e ostentação de poder, época em que a influência eclesiástica também valia peso de ouro. A produção aurífera atingiu o apogeu entre 1730 e 1760.
Por causa da efervescência econômica e cultural dos áureos tempos, Ouro Preto foi a capital mineira até 1897, então substituída por Belo Horizonte, cidade planejada para isso. Enquanto foi capital, a ex-Vila Rica viu a vida cultural ser reforçada com a criação de duas escolas de nível superior: a Escola de Farmácia, em 1839, primeira da América Latina, e a Escola de Minas de Ouro Preto, criada por ato de Dom Pedro II, em 1876, e implantada pelo francês Claude-Henri Gorceix. A Escola de Minas reúne acervo de minerais com mais de 20 mil amostras do mundo inteiro e, em 1984, uma sala especial foi organizada sob moderna concepção museológica.
A cidade de Ouro Preto está localizada na Serra do Espinhaço, região metalúrgica de Minas Gerais, a 1.150 metros de altitude. A antiga capital de Minas conservou grande parte de seus monumentos coloniais e, em 1933, foi elevada a Patrimônio Nacional, sendo que, em 1983, foi tombada pela UNESCO como Patrimônio Histórico da Humanidade. Ouro Preto é conhecida pela diversidade de suas atrações turísticas: das capelinhas às matrizes e paróquias barrocas, das montanhas aos fundos dos vales, da culinária mineira à cozinha internacional, dos parques naturais aos esportes de aventura. Hoje, a cidade representa um resumo da arte colonial mineira, não apenas pela expressão de sua história, mas pelo extraordinário acervo cultural que preservou.
Há muitas repúblicas de estudantes na cidade (mais de 200), só que para morar em algumas delas, antes o bixo (calouro) precisa passar pelo trote. Ele/ela ganha uma placa enorme e ridícula, e deve utilizá-la sempre, em todo lugar que vá. Alguns ainda precisam colocar perucas ou deixar que raspem seus cabelos de maneira “criativa”. São vários deles andando pelas ruas, isso já faz parte da cultura local.
RELATO DE VIAGEM – OURO PRETO MG
Nathalia Nunes
25, 26 e 27 de Outubro 2013
E foi numa dessas promoções relâmpagos da Gol que resolvi comprar meu presente de aniversário, ir a Ouro Preto,MG. Meu aniversario foi dia 23out, porém estaria passando o final de semana de 25 a 27 Out. Até então iria eu e mais um amigo daqui de Curitiba PR, porém o mesmo faria prova do Enem e isso mudou muito meus planos. Através do Mochileiros, conheci o Ivan, que me cedeu sua casa em BH, carona e companhia em OP...
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Dia 25 Outubro Sexta:
Voo 1119 Curitiba 18h38 x Sp Congonhas 19h43
Conexão: Voo 1318 Sp Congonhas 20h37 x BH Confins 22h03
No aeroporto de Confins há varias opções para deslocamento, a mais barata (e segura), no entanto é optar pelo transporte convencional da empresa UNIR. Desta vez fiz o trajeto Aerp. Confins x Aerop. Pampulha.
OBS: Pampulha fica próximo a casa do Ivan, o trajeto demorou uma media de 40/50 minutos.
Vale ressaltar que precisa comprar o bilhete num ponto de venda próximo aos ônibus.
Para maiores detalhes acesse:
- Empresa UNIR
Onibus convencional - R$ 8,90
http://www.conexaoaeroporto.com.br
Encontrei o Ivan e fomos dar uma volta na cidade, passamos pela Avenida Fleming que é a mais agitada e boemia da cidade, decidimos para no Restaurante Filé para papear um “cadinho”.
http://www.restaurantefile.com.br/index2.php
Após uma noite agradável fomos pra casa, pois iriamos acordar cedo para cair na estrada, rumo a Ouro Preto.
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Dia 26 Outubro Sábado:
9h foi o horário que já estávamos na estrada, a mesma é muito boa, não há pedágio. Demora aproximadamente 1h/1h30 o trajeto BH x OP.
Mas no caminho há uma parada no meio da estrada bastante interessante é o “Parada do Pastel de Angu – Restaurante Jeca Tatu”, fica na Rodovia dos Inconfidentes, Km 45 Itabirito – MG.
Esse lugar é um museu,bar,oratório, lanchonete, antiquário, é isso e mais um pouco... possui um sebo no interior de ônibus escolar (estilo americano), com vinil flutuando em seu teto e branca de neve com seus sete anões te observando.
Me senti num universo paralelo, de volta ao tempo, sua decoração é cheia de exageros e um encanto, cada detalhe traz uma lembrança agradável. Aos curiosos (assim como eu) passar poucos minutos é uma tortura, esse lugar é para se passar horas e horas observando e desvendando seus detalhes, aproveita e tire fotos, usufrua de sua gastronomia.
Pelo ônibus existente la e todo o encantamento do lugar, acredito que Alex Supertramp (do filme “Na Natureza Selvagem” / Into The Wild) estaria mochilando por essas áreas hehe.
Continuando a viagem e próximo a Ouro Preto, observamos 3 meninas pedindo carona (há muito disso la), decidimos parar o carro e ceder ajuda as moças. Uma delas era professora de ensino fundamental, outra iria fazer a prova do Enem e a outra...? somente descobrimos quando a deixamos em seu destino e as demais meninas nos disseram, era a Maria Izabel, atriz, que fez pontas na Malhaçao...hehe sim, demos carona para uma atriz Global, ela era engraçada, não ostentou sua profissão, apenas nos retribuiu a carona nos dando varias dicas sobre Ouro Preto assim como as demais meninas. Foi uma carona pra la de agradável.
Chegando a Ouro Preto, estacionamos o carro numa rua e resolvamos caminhar atrás dos atrativos da cidade. Logo de cara encontramos a
Igreja São Francisco de Assis:
Endereço: Largo do Coimbra. Contato: 31 3551 3282
Ingresso: R$ 8,00 (estudante paga meia) - também da direito a visitação do Museu do Aleijadinho.
Essa é a Igreja mais famosa de Ouro Preto, um dos exemplares mais magníficos do barroco mineiro. Sua construção foi iniciada em 1766, projetada por Aleijadinho, que também desenhou o medalhão da fachada e o lavabo da sacristia, a Igreja São Francisco de Assis foi declarada em 2009 umas das sete maravilhas de origem portuguesa do mundo. O forro da nave, que Mestre Ataíde levou mais de dez anos para pintar, é uma de suas maiores obras. No altar-mor, os painéis e quadros laterais também são de sua autoria. A fachada é uma obra-prima da arquitetura colonial mineira. O conjunto representa o casamento perfeito entre Aleijadinho e Mestre Ataíde. O forro da nave cria a ilusão de que o teto se projeta para o infinito, imitando o céu. Na sacristia, o lavabo mostra uma figura vendada que representa a fé. Outra coisa que me chamou a atenção é que o São Francisco de Assis, no altar, tem em sua mão esquerda um crânio, diferente das imagens que vemos dele apenas com animais. Segundo o Guia aqui é a representação de uma das visões de São Francisco já que ele teve a visão do dia de sua morte. Obs: Não pode tirar foto do seu interior, mas demos um jeitinho (posso falar isso produção?)
Segue um poema de Oswald Andrade (escritor, modernista e dramaturgo brasileiro 1890 – 1922), a respeito dela:
OURO PRETO
Vamos visitar São Francisco de Assis
Igreja feita pela gente de Minas
O sacristão que é vizinho da Maria Cana-Verde
Abre e mostra o abandono
Os púlpitos do Aleijadinho
O teto do Ataíde
Mas a dramatização finalizou
Ladeiras do passado
Esquartejamentos e conjurações
Sob o Itacolomi
Nos poços mecânicos policiados
Da Passagem
E em alguns maus alexandrinos
Só o Morro da Queimada
Fala do Conde de Assumar
Dali passamos pela Praça Tiradentes (ponto mais central de OP), descemos pela Rua Direita, comemos algo leve na Subway.
Após o lanche estávamos na
Casa dos Contos
R. São José, 12, Centro. (31) 3551-1444 (Telefone) Ingresso: Grátis.
Demorou 5 anos para ser construída, ou seja de 1782 a 1787, tinha como objetivo de ser residência do Administrador de Impostos da capitania de Minas, João Rodrigues de Macedo. Porem com o passar do tempo, a mesma serviu para acolher a Junta da Real Fazenda e a Intendência do Ouro, recebendo por isso a denominação de Casa dos Contos.
Cláudio Manuel da Costa poeta inconfidente frequentador desse espaço, foi encontrado morto, enforcado com uma corda no armário (estranho ne?), pois é, conforme a guia do local, há um mistério por trás dessa morte, estudiosos sobre o assunto ficam aflitos com isso, pois não há uma resposta concreta, não se sabe se foi suicídio ou homicídio, contudo, a fama é que o mesmo foi um covarde que traiu seus amigos, divulgando informações sigilosas a aproveitadores.
Em geral a mesma é uma antiga casa de pesagem e fundição do ouro, onde o minério era transformado em barra, reconhecido pelo Império (que cunhava seu brasão) e devolvido ao dono. A Casa dos Contos também serviu de prisão. Além de forno de fundição, expõe mobiliário dos séculos 18 e 19 e, no mirante, documentos e livros antigos - um deles, o Livro de Ouro, registra a primeira visita de Dom Pedro I à cidade. É uma das poucas casas ouro-pretanas em que ainda existe uma senzala. Pertence atualmente ao Ministério da Fazenda e guarda acervo que inclui mobiliário (séculos XVIII e XIX), documentos, cartas, rica biblioteca e curiosa coleção de moedas.
Esta senzala foi muito curioso, há diversos materiais originais da época, seu ambiente propriamente dito, paira muito mistério e pena, o guia local (que mais parecia um segurança), nos deu uma ótima “consultoria” do local, forneceu diversas dicas (quem me dera ter um gravador aquela hora pra recordar-me de todas), no entanto explicou detalhadamente cada objeto la existente. Uma fase da historia que eu so tenho a lamentar com tamanha injustiça dos homens. Ahh não pode tirar foto la de dentro da senzala.
E nessa mesma rua atente-se:
Rua São José, nº 21 Casa onde residiu o inconfidente Domingos de Abreu Vieira entre 1784 e 1789.
Rua São José nº 56 e 58 Casa onde residiu um dos desafetos do Ouvidor Tomás Antonio Gonzaga, o contratador de dízimos José Pereira Marques, imortalizado nas sátiras das Cartas Chilenas como Marquério.
Rua São José nº 72 e 76 Antigo Hotel Toffolo, que hospedou ilustres visitantes como Carlos Drummond de Andrade, Olavo Bilac, Guignard e outros intelectuais. Na década de 30, Manuel Bandeira, ao escrever seu célebre Guia de Ouro Preto, recomenda ao visitante a começar seu passeio partindo deste local.
Rua São José nº165, 167. Casarão onde nasceu o poeta simbolista Alphonsus de Guimarães em 1780. Possui belo gradil com as iniciais do nome do poeta.
Saindo dali nos deparamos com
Igreja De São José (Antiga Capela Imperial)
Localização: Rua Teixeira Amaral, s/n, Centro.
Visitação: fechada para visitação.
Começou a ser construída por volta de 1752, só sendo concluída em 1811. Substitui a primitiva capela de 1730. Os riscos do retábulo da capela-mor e da torre são de autoria de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, que foi juiz da irmandade. Do lado de fora da capela, e encostado à sua direita, fica o cemitério onde se encontra o túmulo do poeta Bernardo Guimarães.
Logo acima dela, possui uma ladeira bastante íngreme que da acesso a Igreja São Francisco de Paula, e eu tive que tirar uma foto, pois contando ninguém acreditaria, mas um fusca bastante corajoso sem titubear conseguiu com sucesso alcançar seu cume, uai, se ele conseguiu, eu também consigo, vamos então, 1,2,3...fui!
Igreja São Francisco de Paula
Localização: Rua Pe. José Marcos Pena, s/n, ao lado da rodoviária de Ouro Preto.
Ingressos: R$ 3,00 (meia-entrada para estudantes) - válidos também para a Igreja de Nossa Senhora do Pilar e o Museu de Arte Sacra.
Construída de 1804 a 1898. Trata-se da construção mais recente de Ouro Preto, cujo projeto, de autoria do sargento-mor Francisco Machado da Cruz, manteve-se praticamente inalterado quando de sua conclusão. No centro do altar, encontra-se a imagem de São Francisco de Paula, obra do Aleijadinho.
A mesma estava fechada e um povo meio vandalizado la na frente, não me pareceu nada convidativo ficar tirando fotos, além do mais, tristemente há pichações em seu muro o que lamentavelmente evidencia sua falta de manutenção por conta dos órgãos competentes.
A vista de lá realmente vale muito a pena, dá para ver Ouro Preto toda e compensa todo o esforço em chegar lá em cima. Por ser uma Igreja mais jovem não tem tanto ouro em seus entalhes mais rebuscados, já que é de um período de decadência, mas, vale a pena a visitação.
Vamos andar mais um pouco ne...
Após subidas e descidas, encontrei mais uma igreja, desta vez a
Igreja De Nossa Senhora Das Mercês E Misericórdia (Mercês De Cima)
Localização: Rua Padre Rolim, s/n, Centro.
Construção iniciada em 1773, em substituição à que existia no mesmo local. Quando concluída, teve a fachada modificada para dar lugar à torre central, de autoria do mestre Manuel Francisco de Araújo. Destaque no medalhão do pórtico, em pedra-sabão, representando a Virgem com os braços abertos, estendendo o manto de proteção aos escravos dos mouros.
Continuado nossa cansativa e caminhada, nos deparamos novamente na Praça Tiradentes.
Observe os números 52 a 84. Conjunto Alpoim: Cinco sobrados geminados construídos entre 1740 e 1745 pelo engenheiro militar José Fernandes Alpoim, o mesmo que projetou o Palácio dos Governadores. Uma das construções civis mais imponentes e harmoniosas da cidade.
Importante salientar que devido a um evento na cidade de Ouro Preto (http://jornalvozativa.com/noticias/?p=26902 ) esta praça estava bastante movimentada de estudantes. A noite teve um repertorio de musica clássica.
Enfim...prosseguindo: próximo a praça tem a
Igreja de Nossa Senhora do Carmo
Endereço: Rua Brigadeiro Musqueira sem número. (ao lado do Museu da Inconfidência).
Contato: 31 3551 2601
Construção de 1766, concluída em 1772. Projeto de Manoel Francisco Lisboa, posteriormente modificado por Antônio Francisco Lisboa. Antes de 1766, existia uma capela erigida pelos devotos de Santa Quitéria. A imagem de Santa Quitéria está no trono, logo abaixo da imagem de Nossa Senhora do Carmo. Os dois altares laterais de São João e Nossa Senhora da Piedade e o lavabo de pedra-sabão são atribuídos ao Aleijadinho. Destaque para a presença de 10 painéis de azulejos portugueses em faiança. Ao lado da igreja, na casa do Noviciado, onde o Aleijadinho viveu seus últimos anos, hoje funciona o Museu do Oratório. Anexo à igreja, o curioso cemitério, cuja construção foi iniciada em 1801 e terminada em 1861, com numerosas catacumbas. Um dos últimos projetos do pai de Aleijadinho, a igreja Nossa Senhora do Carmo foi construída em estilo rococó - a última fase do barroco, menos carregada em ouro. É a única do estado com painéis de azulejos portugueses, na capela-mor.
Vocês não estranharam que nesse momento não citei comida? Pois éé, essa é a hora: depois de visitar alguns pontos, subir e descer as ladeiras, é hora de almoçar, ops...ja era aproximadamente 15h30, mas tudo bem, paramos no Bene da Flauta fica ao lado da Igreja São Francisco de Assis. Optamos pela comida Mineira “Feijao Tropeiro”, acredite, alimenta 4 pessoas tranquilamente (preferível pegar uma porção extra de arroz). A sugestão é ótima, lugar agradável, com preço agradável, esse prato (repito: que alimenta 4 pessoas) saiu por 48,00 reais. Maiores detalhes: http://www.benedaflauta.com.br/ . Já li diversos relatos de ouro preto e boas referencias do mesmo, eu concordo!
Dali pegamos o carro que estava estacionado num local próximo, e fomos deixar as mochilas no
Hostel Ouro Preto
http://www.ouropretohostel.com/
Travessa das Lajes, 32 - Antônio Dias - Ouro Preto - MG – Brasil (31) 3551-6011
Fomos apresentados ao hostel, nosso quarto possuía uma linda varanda, no qual tinha uma ótima vista de varias igrejas , descansamos um pouco e percebemos que o sol já estava se pondo, decidimos ir para a Igreja Sta Efigênia que fica num lugar muito muito muito alto, dessa forma, pegamos o carro e pedimos informação a um morador local, qdo descobriu que na verdade queríamos um mirante para admirar a cidade enquanto o sol de punha, mais que depressa nos indicou o “Morro de São Sebastião” eu não sei exatamente informar como chegar la pois demos alguma volta, sabemos que fica próximo a um templo budista, mas se encontrar dificuldades, peça informação.
Todavia, realmente o que ele nos indicou foi muito melhor do que a Igreja Sta. Efigenia, além de ser mais alto , esse morro oferece uma visão mais clara de Ouro Preto, consegue ve a enorme quantidade de igrejas, desfiladeiros, a desordem das ruas (oras largas e oras estreitas)...enfim:: essa é minha ótima dica, pouco ouvi falar a respeito dele. Importante frisar também, que não me pareceu um ponto tao seguro assim, não aconselho ir sozinha ou estender o horário pra la, passavam muitas pessoas, algumas com moto, nos analisando, foi estranho.
O bacana que la também foi o ponto de encontro com um casal carioca pra la de engraçados que também conheci no Mochileiros, a Marcia e o Bruno. Dai em diante eles nos acompanham em todas, embora tenhamos trocado um ou outra mensagem anterior a isso, parecia que tínhamos amizade de longa data, tremendo foi a sintonia.
Enfim...desse mirante o casal foi assistir a missa numa das igrejas e nós fomos tomar o merecido banho dos deuses no Hostel.
As 22h nos encontramos na Praça Tiradentes, comemos pizza no Caldo de Minas e foram muitas risadas, a pizzaria já estava fechando a porta enquanto a noite ainda era uma criança. Saímos dali e fomos na Rua Direita, estava bem movimentada, mas optamos ir num pub Escadabaixo (ou seja, em cima é um café, embaixo é um pub) http://www.escadabaixo.com.br/novidades/ . Os meninos beberam a cerveja OuroPretana de trigo (que é bastante amarga) e as meninas Caipirinha de Limão, confesso que não foi muito agradável, cachaça mineira sabe como é, bem forte, e eu sou fraca para isso.
Depois de muita risada e já na alta madrugada, fomos para o hostel dormir, pois também somos filhos de deus e merecemos a noite dos deuses após um dia tao intenso quanto esse.
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Dia 27 Outubro Domingo:
A programação inicial as 9h era a visitação a Mina do Chico Rei, que a proposito fica ao lado do hostel.
Rua Dom Silvério, 108 - Antônio Dias Ingresso: 10,00 Reais Visitação: Diariamente, das 8h às 17h
A mina do século XVIII era propriedade do Chico Rei, um escravo que conquistou sua alforria e tornou-se rico. Ele foi o único negro que possuiu uma mina de ouro nos tempos coloniais. Situa-se nos fundos do quintal de uma propriedade particular. A mina encontra-se bem conservada. Um dos percursos que se visita é iluminado, o outro não. Nas paredes da mina encontram-se cavidades onde era depositado o ouro recolhido durante o dia. A área total é de 80Km² com 175 galerias abertas, escavadas em três níveis de profundidade.
Conta a tradição oral que Chico Rei, era um galanga, monarca guerreiro e sumo-sacerdote do deus pagão Zambi-Apungo, foi capturado no Congo por mercadores portugueses. Durante a viagem, sua mulher, a rainha Djalô, e sua filha, a princesa Itulo, foram jogadas no mar pelos marujos para aplacar a fúria dos deuses da tempestade, que quase afundou o navio negreiro Madalena. Vendido como escravo, ao lado do filho Muzinga, Galanga desembarcou no Rio de Janeiro. Foi levado para Ouro Preto em 1740 e recebeu o nome de Chico Rei (1709-1781).
Chico e demais escravos escondiam ouro entre os cabelos ao saírem da mina e mais tarde lavavam-os na pia batismal da igreja, sendo acobertados pelos religiosos. Com isso, apois servir cinco anos como escravo do major Augusto de Andrade, ele comprou a sua carta de alforria. Libertou o filho e comprou a suposta mina que estava esgotada (sem ouro e local para explorar) no entanto nas mãos deste ela passou a prosperar. Com o dinheiro, comprou a liberdade de 400 escravos que eram integrantes de sua corte na África e se transformou num homem rico e respeitado. Mandou construir a igreja de Santa Efigênia para ser frequentada pelos africanos.
O capacete é item obrigatório e muito útil, suas escavações são baixas e em muitos trechos tem que andar agachada, a mesma também é bastante úmida, portanto sugiro levar uma roupa extra na mochila, que alias, sugiro deixar na recepção para não atrapalhar seu deslocamento no interior da mina.
Há uma placa na recepção da mina que informa: “ entre 1700/1800 foram extraídos 615mil Kg de ouro , um total de 983mil Kg no Brasil. Até 1828 quase 3milhoes de quilates de diamante. So a mina Chico Rei extraiu 25mil de ouro.
http://www.minadochicorei.com.br
Algumas curiosidades sobre escravos:
Apenas escravos baixinhos e fortes trabalhavam nas minas, para que o buraco não precisasse ser muito grande. Para garantir a mão de obra, adolescentes altos eram castrados e os baixinhos podiam ter 15 mulheres cada um. As mulheres eram obrigadas a terem filhos todos os anos.
Enquanto os homens quebravam pedras dentro na mina, mulheres e cegos ficavam do lado de fora sob os olhos atentos do feitor, peneirando as pedras para encontrar o ouro, que vinha somente em pó. As escravas misturavam pó de ouro à lama e passavam no cabelo, depois nas igrejas lavavam os cabelos e peneiravam novamente o pó de ouro, indo juntando aos pouquinhos para comprar sua alforria (libertação). O turno de trabalho começava às cinco da manhã e terminava às sete da noite. Catorze horas diárias de trabalho pesadíssimo, tendo como alimento, três bananas de manhã e outras três à tarde. Havia descanso apenas três dias por ano.
As crianças começavam a trabalhar cedo, aos cinco anos de idade. Com essa rotina insana de trabalho e as doenças respiratórias que a mina provocava, os escravos morriam com 22 anos de idade.
Para cá foram trazidos escravos capturados em várias nações africanas, tais como Sudão, Guiné, Angola, Moçambique e Congo. Para o trabalho na mineração havia a preferência por um tipo específico de escravo, pelo qual se pagava caro: o negro-mina. Baixo e forte, o negro-mina vinha da região do Congo. Forte para a brutalidade do trabalho e baixo para melhor se mover nos ambientes apertados dos talhos e das galerias das minas, o negro-mina recebia tal denominação por conhecer técnicas rudimentares de mineração, as quais aprendia em sua própria cultura.
Após a visitação a Mina, compramos souvenirs pela cidade, vistamos o interior da Igreja São Francisco (sim!ela estava aberta) e teve episódios em seu interior hilários, porem vou me restringir a divulgação desta cena. Dali almoçamos novamente no Bene da Flauta. Era o fim da linha do meu final de semana.
Pegamos o carro e fomos embora, Ivan me deixou no aeroporto e tristemente me despedi desse estado que me recebeu tao bem.
Retorno 27/10
Voo 1813 BH Confins 19h43 x SP Guarulhos 21h10
Conexão: Voo 1932 Sp Guarulhos 22h10 x Curitiba 23h22
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Provavelmente esse foi o final de semana mais desafiador no quesito “tempo”.
Como conhecer uma cidade tão grande, rica e variada com apenas um dia inteiro para apreciá-la?
A ideia era fazer da forma mais calma possível, sem stress e correria, porém conhecendo o maior número de atrações.
Dado o traçado tortuoso com ruas apertadas e acidentadas, repletas de impiedosas ladeiras, a melhor e mais tranquila forma de conhecer a cidade, sobretudo o centro histórico, é mesmo a pé.
Há diversos guias nas ruas oferecendo seus serviços, eles cobram uma media de 30/60 reais dependendo do destino e da sua cara (se vc tem cara de rico ou não), sinceramente com uma ou outra pesquisa no Google (e até mesmo esse relato), não vejo necessidade, mas você sabe como é o mercado de trabalho e quem sou eu para contrariar a economia brasileira.
Enfim...esteja preparada para partir numa caminhada em meio a uma verdadeira overdose de informações, paisagens, contos e causos sobre a Inconfidência, a época da mineração e o estilo de vida mineiro.
Ouro Preto é tudo que eu imaginava, mas que não dá para descrever. Passear de dia pela Rua São José é mergulhar na história. Caminhar à noite é entender porque Olavo Bilac escolheu aquele lugar para refugiar-se no passado. Ali todo parnasiano vira barroco, inevitavelmente.
Suas centenas de construções históricas remetem a um passado interessantíssimo cultural e politicamente a qualquer brasileiro e caminhar por suas ladeiras traduz esse sentimento em civilidade. Muitos dos imóveis possuem placas explicativas de seu passado histórico ou de algum ilustre morador antigo.
Há muitos lugares que eu gostaria de ter visto e que vão ficar para a próxima vez, como o Parque do Itacolomi, o Mirante da UFOP, quem sabe o Trem da Vale ou mesmo alguns dos mais de 20 museus da cidade. O fato é que não adiante estressar: não dá pra ver tudo de uma vez.
Minha dica é deixar a trip te levar. Vá fazendo o que dá e o que os nativos recomendam. Assim você não se cansa e sempre pode voltar, com mais planos, mapas e vontades.
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OUTRAS DICAS::
Onibus que faz trecho BH x OP
Empresa Pássaro Verde,24,70
http://www.passaroverde.com.br/
1. Traga sapatos bem confortáveis e firmes no pé. Tênis é a melhor pedida.
2. Roupas confortáveis também pois as ladeiras são bem fortes
3. Traga um casaquinho pois como Ouro Preto é bem alto faz um friozinho caso você queira passear no final de tarde.
4. Coma comida mineira e anda tudo a pé para queimar as calorias das delícias de MG.
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Para facilitar... este relato disponho em anexo, o mesmo tambem acompanha um mapa que realizei para ter como parametro, um norte a seguir (que muito me ajudou)
Relato Ouro Preto - Nathalia Nunes.pdf
Espero que façam uma otima viagem assim como eu fiz!!
Qualquer coisa entrem em contato.
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